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                <journal-title>Revista de Educação PUC-Campinas</journal-title>
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            <issn pub-type="ppub">1519-3993</issn>
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                <publisher-name>Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica de Campinas</publisher-name>
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            <article-id pub-id-type="doi">10.24220/2318-0870v30a2025e13160</article-id>
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                <article-title>Os rastros das práticas de leitura de romances na biblioteca do Instituto de Educação “Carlos Gomes”</article-title>
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                    <trans-title>Traces of novel reading practices in the library of the “Carlos Gomes” Education Institute</trans-title>
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                        <surname>Kirchner</surname>
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                <institution content-type="orgname">Centro Universitário Faculdades Atibaia</institution>
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                    <named-content content-type="city">Atibaia</named-content>
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                <institution content-type="original">Centro Universitário Faculdades Atibaia. Atibaia, SP, Brasil. E-mail: cassiasallesmk@gmail.com.</institution>
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            <author-notes>
                <fn fn-type="edited-by">
                    <label>Editora</label>
                    <p>Andreza Barbosa</p>
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                <fn fn-type="conflict">
                    <label>Conflito de interesse</label>
                    <p>Não há conflito de interesses.</p>
                </fn>
            </author-notes>
            <pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
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                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (<italic>Open Access</italic>) sob a licença <italic>Creative Commons Attribution</italic>, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.</license-p>
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            <abstract>
                <title>Resumo</title>
                <p>Este trabalho rastreou vestígios deixados por “possíveis leitoras” nos romances da Coleção Biblioteca das Moças encontrados no acervo do Instituto de Educação “Carlos Gomes”, em Campinas. O recorte temporal foi estabelecido considerando as marcas de leitura e registros de empréstimos deixados nos exemplares e coincide com o período que a Instituição recebeu a denominação de Instituto de Educação entre 1951 e 1976. O trabalho buscou uma aproximação das práticas de leitura realizadas por “possíveis leitoras” dos romances da Coleção e durante a pesquisa foi identificada uma transição entre a “leitora pretendida”, estabelecida a partir da estratégia editorial, e a “leitora rastreada” identificada a partir dos vestígios encontrados nos romances e memórias relatadas por quatro ex-alunas da instituição, o que possibilitou uma aproximação da coleção na perspectiva da leitora. A Coleção foi publicada pela Companhia Editora Nacional no período entre 1926 e 1960 e foi considerada uma leitura adequada para a formação feminina promovendo uma representação de mulher adequada aos padrões vigentes no período pesquisado. Contudo, ao investigar as marcas deixadas nos livros, como anotações, carimbos e registros de empréstimos, foi possível observar como essas leitoras reinterpretaram e adaptaram os textos conforme suas próprias vivências e necessidades. A análise segue o paradigma indiciário de Ginzburg, que propõe a leitura de vestígios como pistas para compreender as práticas de leitura do passado. Também se baseia nos conceitos de Certeau sobre estratégias e táticas, sugerindo que as “possíveis leitoras” não consumiam passivamente os romances, mas criavam significados, desafiando as intenções editoriais.</p>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>Abstract</title>
                <p>This research traced the vestiges left by “potential readers” in the novels of the Biblioteca das Moças Collection found in the collection of the Carlos Gomes Institute of Education, Campinas. The temporal cut was established considering the reading marks and loan records left in the copies and coincides with the period in which the Institution was named the Institute of Education between 1951 and 1976. The research sought an approximation of the reading practices carried out by “potential readers” of the novels in the Collection and during the research a transition was identified between the “intended reader”, established from the editorial strategy, and the “traced reader” identified from the vestiges found in the novels and memories reported by four former students of the institution, which allowed an approximation of the collection from the reader’s perspective. The Collection was published by Companhia Editora Nacional between 1926 and 1960 and was considered a suitable reading for female education, promoting a representation of women appropriate to the standards prevailing in the period studied. However, when investigating the marks left on the books, such as annotations, stamps, and loan records, it was possible to observe how these readers reinterpreted and adapted the texts according to their own experiences and needs. The analysis follows Ginzburg’s indiciary paradigm, which proposes the reading of traces as clues to understand past reading practices. It is also based on Certeau’s concepts of strategies and tactics, suggesting that the “potential readers” did not passively consume the novels, but created meanings, challenging the editorial intentions.</p>                
            </trans-abstract>
            <kwd-group xml:lang="pt">
                <title>Palavras-chave</title>
                <kwd>Coleção Biblioteca das Moças</kwd>
                <kwd>Companhia Editora Nacional</kwd>
                <kwd>Gênero</kwd>
                <kwd>Práticas de leitura</kwd>
            </kwd-group>
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                <title>Keywords</title>
                <kwd>Young women’s library collection</kwd>
                <kwd>Companhia Editora Nacional</kwd>
                <kwd>Gender</kwd>
                <kwd>Reading practices</kwd>
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    <body>
        <sec sec-type="intro">
            <title>Introdução</title>
            <p>Pesquisar a história da leitura a partir de vestígios deixados por leitores é uma tarefa árdua, “a leitura não tem garantias contra o desgaste do tempo, ela não conserva ou conserva mal a sua posse, e cada um dos lugares por onde ela passa é repetição do paraíso perdido” (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>, p. 270). Com alguma perseverança, é possível identificar quem lia e o que era lido outrora; persiste, no entanto, a dificuldade em descobrir os motivos que levaram a essa ou àquela leitura, assim como alcançar os modos como se lia. Ao buscar respostas para essas questões, os historiadores da leitura lançam mão de várias estratégias, que vão desde o estudo de relatos, autobiografias, diários, cartas, até a análise de anotações deixadas por leitores nos livros que são tomados para leitura (<xref ref-type="bibr" rid="B01">Abreu, 2005</xref>).</p>
            <p>Neste trabalho, que integra parte da tese de doutorado (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Kirchner, 2016</xref>), a busca pela leitura parte dos indícios encontrados nos romances que compõem a Coleção Biblioteca das Moças e se encontram na biblioteca não circulante da antiga “Escola Normal de Campinas”<bold><xref ref-type="fn" rid="fn02">2</xref></bold>. Neles foram localizados cartões de empréstimos e anotações feitas em suas margens indicando certo potencial para a investigação das práticas de leitura ali ocorridas. A citada Coleção foi publicada ininterruptamente pela Companhia Editora Nacional<bold><xref ref-type="fn" rid="fn03">3</xref></bold> no período entre 1926 e 1960 provavelmente com o propósito de disseminar normas sociais consideradas adequadas para a formação feminina.</p>
            <p>Dentro dessa formação feminina considerada adequada é forjada e atualizada uma representação de mulher “frágil e soberana, abnegada e vigilante”. Esse novo modelo normativo de mulher começa a ser elaborado desde meados do século XIX, prega novas formas de comportamento e de etiqueta, “inicia pelas moças das famílias mais abastadas e pouco a pouco chega às classes trabalhadoras, exaltando as virtudes burguesas da laboriosidade, da castidade e do esforço individual” (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Rago, 1985</xref>, p. 62).</p>
            <p>É preciso considerar que para a história das práticas culturais como reconstituição de trajetórias complexas, no percurso “da palavra proferida ao texto escrito, da escrita lida aos gestos feitos, do livro impresso à palavra leitora” a noção de apropriação pode ser útil, por “pensar as diferenças na divisão, ao postular a invenção criadora no próprio cerne dos processos de recepção” (<xref ref-type="bibr" rid="B09">Chartier, 1990</xref>, p. 136). Contudo, a presença e circulação de uma representação não demonstra o que ela é para seus usuários. É preciso “analisar sua manipulação pelos praticantes que não a fabricam” e, desse modo, apreciar “a diferença ou a semelhança entre a produção da imagem e a produção secundária que se esconde nos processos de sua utilização” (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>, p. 40).</p>
            <p>Ao buscar as “possíveis leitoras” dos romances da Coleção Biblioteca das Moças encontrados na biblioteca do Instituto de Educação “Carlos Gomes” através dos subterfúgios utilizados para conquista e fidelização de um público almejado pelos editores dessa Coleção foi identificada a “leitora pretendida”. Durante a investigação houve um deslocamento da “leitora pretendida” para a “leitora rastreada”, identificada através dos vestígios deixados nos romances dessa biblioteca e dos relatos das ex-alunas demonstrando que, “cada novo dispositivo estratégico produz novas artes táticas de fazer: elas só precisam de tempo para serem inventadas no dia a dia” (<xref ref-type="bibr" rid="B04">Chartier; Hébrard, 1998</xref>, p. 37). Portanto, a leitura tratada aqui como um dos modos de apropriação dos romances é vista como uma operação entranhada em conflitos sociais entre a ação daqueles que escrevem, daqueles que publicam e a liberdade de escolha daqueles que leem.</p>
            <p>O rastreamento foi feito através dos vestígios localizados nos romances e identificados através das assinaturas, carimbos, referências aos locais de compra, anotações em suas margens, marginalias, objetos esquecidos entre suas páginas, registros nos cartões de empréstimos e, ainda, nos reforços feitos em suas capas comprovando o quanto foram manuseados. Seguindo os procedimentos metodológicos pautados no paradigma indiciário proposto por <xref ref-type="bibr" rid="B16">Ginzburg (1989)</xref> foram alcançados resultados que indicaram as estratégias (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>) utilizadas pelos editores com o objetivo de alcançar o público feminino e pistas sobre as táticas (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>) que as leitoras utilizavam durante a leitura desses romances.</p>
            <p><xref ref-type="bibr" rid="B11">Chartier (2002)</xref> propõe que as análises sobre a leitura contraponham práticas de ordenação de condutas, as “possíveis leitoras” da Coleção Biblioteca das Moças do Instituto de Educação “Carlos Gomes” percorreram caminhos que contrapunham as estratégias dos editores da Companhia Editora Nacional e utilizavam táticas, demonstrando que “longe de terem a absoluta eficácia aculturante que lhes é atribuída com frequência, esses dispositivos [...] deixam necessariamente esse lugar, no momento em que são recebidos, à variação, ao desvio, à reinterpretação” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Chartier, 2002</xref>, p. 53 ).</p>
            <p>Essa contraposição proposta por <xref ref-type="bibr" rid="B09">Chartier (1990, p. 121)</xref> entre o “caráter todo poderoso do texto” e a “liberdade primordial do leitor”, ficou demonstrada logo no início da investigação, quando os marcos temporais levantados por meio da pesquisa bibliográfica sobre a constituição da Coleção não correspondiam às datas registradas nos exemplares. Ao projetar uma pesquisa que considerava uma estratégia editorial voltada inicialmente para moças, possivelmente normalistas, das décadas de 1920 e 1930 e encontrar apenas exemplares publicados na década de 1950 com registros de empréstimos até a década de 1970, verificou-se que a “liberdade do leitor” aparecia à medida que a pesquisa avançava. Cabia, assim, interrogar os distintos usos feitos desses textos (<xref ref-type="bibr" rid="B09">Chartier, 1990</xref>) para identificar os desvios e reinterpretações.</p>
            <p>Assim, a investigação foi realizada considerando quatro períodos relacionados ao objeto de pesquisa: o período de produção dos romances, tanto das primeiras publicações, entre 1926 e 1948, por sinalizar estratégias editoriais voltadas para um público determinado quanto das edições localizadas na biblioteca da antiga Escola Normal de Campinas, ou seja, romances publicados entre 1949 e 1960; o período em que a escola esteve como Instituto de Educação “Carlos Gomes”, de 1951 a 1976, por situar a Coleção em um lugar histórico específico, possibilitando tratá-la a partir desse lugar; o período de registro nos cartões de empréstimos, entre os anos de 1957 e 1975, por dar pistas sobre sua circulação e as “possíveis leitoras” desses romances; e, ainda, no intuito de tratar da coleção na perspectiva do leitor, foram considerados relatos de quatro irmãs, ex-alunas do Instituto de Educação “Carlos Gomes” que ali estudaram entre 1948 e 1974.</p>
            <p>O acesso às ex-alunas ocorreu através do interesse pelo mesmo assunto de pesquisa. A irmã mais nova formou-se em biblioteconomia e durante o levantamento de materiais ocorreu a oportunidade do acesso às memórias de estudantes que utilizaram a biblioteca do Instituto no período pesquisado. As entrevistas possibilitaram certa aproximação de leitoras que já não pertenciam à geração de “leitoras pretendidas”, mas que apresentavam outras práticas de leitura ocorridas dentro e fora da instituição escolar, comprovando que a Coleção conquistou leitoras também nas décadas de 1950 a 1960.</p>
            <p>As entrevistas foram desenvolvidas em grupo, gravadas e transcritas para análise. Foi estabelecida como referência para guiar a entrevista a prática de leitura de romances, a qual auxiliou na construção de uma trama por onde transitaram as leitoras e suas lembranças. Mesmo compartilhando memórias, mesma origem, trajetória de formação na mesma instituição escolar e atuação profissional na área de educação, os relatos apresentaram práticas de leitura bastante diferenciadas. Diferenças perceptíveis tanto pelo gosto pessoal – a preferência pela leitura de romances nacionais, determinado autor, traduções – quanto pelo acesso ao suporte onde eram veiculados.</p>
            <p>O modelo de análise proposto por <xref ref-type="bibr" rid="B12">Darnton (1992)</xref> trouxe contribuições para o trabalho ao recomendar uma estratégia dupla que combina análise textual e pesquisa empírica, possibilitando que a análise fosse além da materialidade do texto. Ou seja, comparar os leitores implícitos com os leitores reais, neste caso as “leitoras pretendidas” e as “leitoras rastreadas”. Ao considerar os relatos e registros particulares de leitura como fontes valiosas para a história da leitura, o autor acredita ser este um canal privilegiado de acesso às práticas de leitura do passado, apesar de geralmente serem raras e fragmentadas. Mesmo que não represente o todo, Darnton ressalta que é possível “captar algo do que a leitura significava para poucas pessoas que delas deixaram registros” (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Darnton, 1992</xref>, p. 224).</p>
            <p>As pistas deixadas pelas “leitoras rastreadas” e identificadas através dos vestígios (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Ginzburg, 1989</xref>) deixados na materialidade dos romances foram relacionadas com as memórias de práticas de leitura relatadas pelas ex-alunas do Instituto. A relação estabelecida entre a materialidade e os relatos possibilitou alcançar as práticas nas suas diferenças, demonstrando os deslocamentos e as adaptações feitas pelas leitoras à medida que as diferentes demandas surgiam estabelecendo novos hábitos e, consequentemente, novas práticas. Assim foi possível identificar deslocamentos e sobreposições, ampliando a produção de significados e outros modos de apropriação dos romances da Coleção Biblioteca das Moças para além daqueles previstos pelas estratégias editoriais.</p>
            <p>Desse modo, o presente artigo pretende apresentar as práticas de leitura identificadas a partir dos vestígios deixados por “possíveis leitoras” nos romances da Coleção Biblioteca das Moças, encontrados na biblioteca do Instituto de Educação “Carlos Gomes”. O trabalho apresenta as motivações e modos de leitura identificados a partir dos deslocamentos entre uma “leitora pretendida” e a “leitora rastreada”, destacando as adaptações e invenções que surgem no cotidiano. O artigo se fundamenta no paradigma indiciário proposto por <xref ref-type="bibr" rid="B16">Ginzburg (1989)</xref>, os conceitos de estratégia e tática desenvolvidos por <xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau (1996)</xref> explorando os vestígios materiais e os relatos de ex-alunas para reconstituir as práticas de leitura, evidenciando as variações e reinterpretações que desafiam as estratégias de controle editorial.</p>
            <sec>
                <title>Os vestígios e as memórias de leitura na biblioteca do Instituto de Educação “Carlos Gomes”</title>
                <p>Ao analisar, organizar, catalogar, decifrar ou ler as pistas é preciso cuidar para não tomá-las “ao pé da letra” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Ginzburg, 1989</xref>). Um trabalho realizado a partir de vestígios requer um “rigor flexível”, que utilize tanto a rigidez da técnica quanto a fluidez da intuição. Ao trabalhar desse modo, podem ocorrer momentos em que dados parecem surgir “ao acaso”; noutros, as perguntas cristalizam e podem estabelecer o risco de que seja alcançado apenas “o que já se sabia” de antemão (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Ginzburg, 1989</xref>). Nessa situação, o autor sugere uma leitura às avessas, sendo preciso afastar-se e “contemplar a realidade de um ponto de vista insólito”, “fazer perguntas oblíquas à realidade” e buscar um modo de escapar à cristalização e aos automatismos a que o trabalho de pesquisa está sujeito (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Ginzburg, 2004</xref>, p. 41).</p>
                <p>Dentro das possibilidades daquilo “que já se sabia”, inicialmente foi considerado que os romances pertencentes à biblioteca de uma Escola Normal fossem lidos por normalistas, levantando a possibilidade de investigar se esses romances estavam entre as leituras realizadas durante a formação de futuras professoras na Escola Normal. Tal consideração, porém, se sustentou apenas até o momento do levantamento e catalogação dos exemplares encontrados nessa biblioteca. O levantamento indicou que dos setenta e nove títulos localizados na biblioteca do instituto, de um total de cento e setenta e seis romances que compõem a Coleção, apenas dois foram publicados na década de 1940. Os demais setenta e sete títulos pertencem à segunda fase da Coleção compreendida entre os anos de 1949 e 1960 (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Lang, 2008</xref>). Desse modo, se a instituição recebeu a denominação Escola Normal de Campinas entre 1920 e 1936 e os romances foram publicados após 1940 a relação direta entre a presença da Coleção e uma possível leitura feita por normalistas nesse período ficou comprometida.</p>
                <p>Já o período de publicação dos romances que integram a biblioteca da antiga Escola Normal de Campinas torna-se relevante, quando comparado aos períodos das diferentes denominações da instituição escolar decorridas de mudanças em sua estrutura e organização. Ao ser ampliada de Escola Normal para Ginásio Estadual, em 1942, e para Instituto de Educação Estadual, em 1951, a escola recebe estudantes tanto do sexo feminino quanto do sexo masculino, oferecendo, além do curso normal, os cursos: ginasial, preparatório para exames de admissão, pós-graduação em administração escolar, aperfeiçoamento, especialização em educação pré-primária e especialização de professores de alunos débeis mentais, terminologia utilizada no período. Com essa ampliação, os leitores desses romances não poderiam ser mais circunscritos apenas às normalistas porque, apesar da Coleção Biblioteca das Moças ter sido idealizada pela Companhia Editora Nacional visando o público feminino, a Coleção investigada pertence a uma instituição escolar de atendimento misto e variedade de cursos.</p>
                <p>Dadas as variáveis, optou-se por manter neste estudo o termo “possíveis leitoras” diferente dos termos “leitora pretendida”, pois a estratégia editorial era direcionada às moças, e “leitoras rastreadas” por haver o indicativo, a partir dos relatos das ex-alunas, de que os livros eram emprestados e compartilhados por estudantes.</p>
                <p>Para o rastreamento das “possíveis leitoras” dessa Coleção foram estabelecidas algumas escolhas. Inicialmente voltou-se para a análise das marcas que indicavam o pertencimento dos romances à biblioteca da instituição escolar. Os romances, assim como os demais livros dessa biblioteca foram cuidadosamente catalogados, recebiam o carimbo da instituição, carimbo de tombo no verso da folha de rosto e etiqueta na lombada do livro com o número de tombo e localização. Ao final do livro, era fixado um envelope com o cartão de empréstimo para o registro do autor, título do livro, número do usuário, data de empréstimo e data de devolução. Através das datas do tombo ficou confirmado que os romances foram adquiridos no período em que a instituição escolar foi denominada Instituto de Educação, nenhum dos romances foi adquirido ou doado em período anterior ou posterior.</p>
                <p>Por meio dos registros nos cartões de empréstimo dos exemplares foi possível identificar que teve grande procura por determinados romances, assim como estabelecer os períodos de maior empréstimo. Entre os anos de 1957 e 1961, há uma grande movimentação de retirada dos livros. No período entre 1962 e 1965, não houve registro de circulação. Em 1966, são retomados os registros nos cartões indicando uma queda significativa de procura e assim permanece até o ano de 1975. Em 1976 foi feita a adequação da nomenclatura de Instituto de Educação Estadual “Carlos Gomes” para Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau “Carlos Gomes”. A adequação da terminologia das escolas em São Paulo não ocorreu logo após a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases nº 5692 de 1971, passando por adequações apenas nesse ano. Após 1976 não há mais registros nos cartões de empréstimos tanto dos romances da Coleção quanto dos demais livros do acervo.</p>
                <p><xref ref-type="bibr" rid="B05">Chartier e Hébrard (1995, p. 366)</xref> abordam os regulamentos das bibliotecas em escolas normais com a seguinte advertência: “Eis a lição que se pode tirar dos regulamentos que disciplinam o uso das bibliotecas de escola normal: o acesso aos livros é severamente fiscalizado e limitado”. As memórias das ex-alunas do Instituto de Educação “Carlos Gomes” a respeito das leituras desenvolvidas na biblioteca da instituição em muito se aproximam da afirmação feita acima. Enquanto os autores mencionam o controle exercido por preceptores, inspetores e diretores, as memórias das ex-alunas do Instituto de Educação “Carlos Gomes” atêm-se à figura da bibliotecária que regulava e ditava o funcionamento da biblioteca.</p>
                <p>As ex-alunas estudaram na instituição em diferentes períodos iniciando com a irmã mais velha que fez o curso ginasial em 1948 e finalizando com a irmã mais nova que concluiu sua formação na década de 1970. As quatro irmãs fizeram o curso normal em diferentes momentos entre 1953 e 1970, na sequência optaram por um dos cursos de aperfeiçoamento oferecidos pela mesma instituição em ensino primário, especialização em educação pré-primária e especialização de professores de alunos débeis mentais, terminologia utilizada no período. Apenas uma das entrevistadas acompanhou a mudança de Escola Normal e Ginásio Estadual “Carlos Gomes” para Instituto de Educação Estadual “Carlos Gomes” ocorrida em 1951. Essa transição aparece como fato marcante em seus relatos através das memórias dos momentos festivos e visita de autoridades.</p>
                <p>O Instituto resultava de esforços ocorridos nas décadas anteriores que buscavam organizar a educação no país. Um marco para essa organização foi o Código de Educação estabelecido por meio do Decreto nº 5.884, de 21 de abril de 1933. Esse decreto foi comentado por Fernando de Azevedo em relatório publicado no <italic>Annuário do Ensino do Estado de São Paulo</italic> de 1935-1936 como sendo “a mais radical reforma empreendida no ensino normal” (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Secretaria da Educação e da Saúde Pública, 1936</xref>, p. 336).</p>
                <p>Mesmo com a fundação do primeiro Instituto de Educação em 1933, a saber, Instituto de Educação “Caetano de Campos”, na cidade de São Paulo, o “processo de expansão para o interior do Estado e para o litoral iniciou-se apenas em 1951, havendo a criação de novos Institutos de Educação até 1967” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Labegalini, 2009</xref>, p. 15). Possivelmente, por ser Campinas a primeira cidade do interior a ser contemplada, o fato ficou marcado na memória de estudantes da época dada a importância do fato.</p>
                <p>O Código traz em seu Título VI – Da biblioteca no Capítulo I – De sua organização e fins, no Art. 768: “O Instituto de Educação tem uma biblioteca que, oferecendo as fontes de consulta e informação indispensáveis aos professores e alunos do estabelecimento, é o complemento necessário do trabalho escolar” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Estado de São Paulo, 1933</xref>, <italic>online</italic>). Dentro do mesmo título, no Capítulo II – Da administração, o Art. 770 estabelece que “a biblioteca dever ter um bibliotecário, um quarto escriturário e um servente” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Estado de São Paulo, 1933</xref>, <italic>online</italic>). E no Art. 771, descreve as competências do bibliotecário (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Estado de São Paulo, 1933</xref>, <italic>online</italic>):</p>
                <p><disp-quote>
                        <list list-type="alpha-lower">
                            <list-item>
                                <p>organizar, administrar e fiscalizar as várias secções da biblioteca;</p>
                            </list-item>
                            <list-item>
                                <p>manter em dia a classificação, catalogação e inventário dos livros;</p>
                            </list-item>
                            <list-item>
                                <p>propor ao diretor do Instituto de Educação a compra e permuta de livros e outras publicações;</p>
                            </list-item>
                            <list-item>
                                <p>orientar e auxiliar a leitura dos alunos do Instituto;</p>
                            </list-item>
                            <list-item>
                                <p>incumbir-se de aulas de biblioteconomia, quando solicitadas;</p>
                            </list-item>
                            <list-item>
                                <p>colaborar com os professores na elaboração de resenhas bibliográficas;</p>
                            </list-item>
                            <list-item>
                                <p>manter correspondência com bibliotecas nacionais e estrangeiras;</p>
                            </list-item>
                            <list-item>
                                <p>incumbir-se da preparação do catálogo geral;</p>
                            </list-item>
                            <list-item>
                                <p>apresentar semestralmente ao diretor do Instituto relatório dos trabalhos realizados e, anualmente, inventario dos livros;</p>
                            </list-item>
                            <list-item>
                                <p>organizar e manter em dia cópia do catálogo de bibliotecas e livrarias que publiquem boas obras sobre educação;</p>
                            </list-item>
                            <list-item>
                                <p>dirigir e orientar os trabalhos do escriturário e do servente.</p>
                            </list-item>
                        </list>
                    </disp-quote></p>
                <p>O Título VI é finalizado com o Capítulo III que estabelece as formas de funcionamento da biblioteca circulante. O Art. 742 desse capítulo define que “a biblioteca deverá ter serviço de circulação que permita a retirada de livros aos professores e alunos do estabelecimento e demais pessoas interessadas” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Estado de São Paulo, 1933</xref>, <italic>online</italic>). Os parágrafos desse artigo têm especial interesse por ser próximo da figura da bibliotecária descrita nos relatos de memória das ex-alunas:</p>
                <p><disp-quote>
                        <p>§ 1º – Compete ao bibliotecário a fiscalização rigorosa deste serviço, a fim de que seja garantida a devolução, em tempo, da obra retirada, com taxas estipuladas no caso de devolução tardia de não haver devolução ou de danificação de livros.</p>
                        <p>§ 2º – Essa taxa é estipulada pelo bibliotecário, com audiência do diretor do Instituto, e constará do regulamento interno.</p>
                        <p>§ 3º – Essas taxas serão recebidas diretamente pela biblioteca e empregadas na aquisição de livros e outras publicações.</p>
                    </disp-quote></p>
                <p>Foi possível relacionar as orientações descritas acima à conduta da bibliotecária do Instituto de Educação “Carlos Gomes” através dos relatos das ex-alunas por ser rigorosa com os prazos de empréstimo e de um cartão encontrado dentro de um dos romances. O texto escrito no cartão comunicava a uma aluna que um exemplar da Coleção Biblioteca das Moças havia sido retirado por ela e não devolvido no prazo ocasionando a taxa pelo ocorrido.</p>
                <p>As memórias relatadas pelas ex-alunas indicavam que na biblioteca do Instituto as leituras eram voltadas para pesquisas de conteúdo e leituras para fichamento, não havia propostas desenvolvidas na biblioteca para apreciação estética ou leitura por prazer. <xref ref-type="bibr" rid="B05">Chartier e Hébrard (1995)</xref> questionam a distância existente entre as autoridades parisienses favoráveis a uma política mais estimuladora e liberal em matéria de leitura, e o excesso de rigor exercido pelos diretores nas escolas normais. Na perspectiva dos autores, tal postura mais transformava os alunos-mestres em “escravos do programa” que “amigos da leitura”.</p>
                <p>A leitura realizada por interesse e prazer é rememorada pelas ex-alunas em espaços como o Clube Literário<bold><xref ref-type="fn" rid="fn04">4</xref></bold> e, principalmente, a Biblioteca Municipal<bold><xref ref-type="fn" rid="fn05">5</xref></bold>. A memória sobre a sala de leitura da biblioteca do Instituto, espaço anexo à biblioteca, está igualmente ancorada às normas de comportamento e disciplina e não à prática de uma leitura agradável. Assim, a exigência do passo leve para caminhar, o respeito durante a solicitação de um livro, o cuidado em seu manuseio, a impossibilidade de acessar determinadas estantes e a responsabilidade para devolução do exemplar sem atraso e sem marcas dá o tom ao relato. As exigências do acesso aos livros na biblioteca do Instituto faziam com que o livro desejado fosse procurado primeiro na Biblioteca Municipal ou no Clube Literário. Apenas quando não encontrado nesses espaços havia a procura na biblioteca do Instituto.</p>
                <p>Em sua pesquisa sobre os Institutos de Educação entre 1933 e 1975, <xref ref-type="bibr" rid="B18">Labegalini (2009)</xref> analisa os programas de ensino desde o programa estabelecido em 1933 para a Escola de Professores do Instituto de Educação “Caetano de Campos” até programas do Curso Normal de 1958. A pesquisa demonstra que, mesmo com as alterações realizadas, os diferentes cursos abordavam a leitura sempre considerando seu conteúdo teórico-metodológico, com o objetivo de preparar os alunos para o seu ensino quando fossem atuar como professores.</p>
                <p>A manutenção dessa proposta pode ser verificada nos relatos das ex-alunas ao mencionarem o pouco incentivo à leitura da literatura nacional ou dos clássicos universais. A indicação para esse tipo de leitura vinha associada ao ensino de literatura, ou seja, como forma de estudo de determinada escola literária. Assim, José de Alencar era lido para compreender o romantismo, Machado de Assis para compreender o realismo, as obras eram estudadas e não apreciadas. A leitura era tratada como um recurso voltado para a compreensão da língua, aquisição de conhecimentos, um meio para enriquecer e corrigir a linguagem, não para a apreciação estética da obra.</p>
                <p>Desse modo, se o programa de ensino determinava o objetivo da leitura a ser realizada nos espaços do Instituto, a indicação dos livros lidos por prazer ocorria informalmente. Essa prática também foi encontrada durante a análise dos romances ao encontrar anotações nas contracapas com sugestão de leitura como: “Ótimo!”, “Um estouro!”, “Espetacular!!!”, “Bom final!”. Assim, a indicação de que havia na biblioteca do Instituto um bom romance para ser lido acontecia nas conversas de intervalo, durante os horários vagos e no transporte público. Possivelmente os romances da Coleção “Biblioteca das Moças” escapavam do rigor de empréstimo de outros exemplares por ser considerado um livro de menor importância, tanto no conteúdo quanto na materialidade, livros com encadernação simples, páginas em papel jornal e capa sem verniz configurando um suporte de baixo custo e escapavam do controle da bibliotecária.</p>
                <p>A aproximação das práticas de leitura através das pistas, vestígios e relatos de memória possibilitou compreender seus modos de circulação e apropriação (<xref ref-type="bibr" rid="B08">Chartier, 2004</xref>) dos romances na biblioteca do Instituto a partir do olhar daqueles que seriam seus consumidores. Aparentemente, essa biblioteca destinava-se à aquisição e conservação de livros relevantes para a formação de gerações que por ali passaram e, mediante seu acervo, reafirmava o lugar de distinção ocupado no cenário educacional da cidade. Contudo, as práticas de leitura dentro da sala de leitura ocorriam de modo cerimonioso e pouco convidativo para estudantes. Apesar disso, livros considerados com menor importância para essa formação circulavam e escapavam às normas prescritas invertendo a lógica do que realmente era consumido por essas gerações.</p>
                <p>O estado de conservação de muitos livros do acervo da biblioteca do Instituto demonstra que foram pouco manuseados, o cartão de empréstimo da maioria dos livros não tem registros, o que confirma os relatos das ex-alunas sobre as restrições de acesso aos exemplares e permissão de acesso apenas na sala de leitura.</p>
                <p>Sobre os modos de empréstimo, as ex-alunas descrevem que o processo iniciava com a consulta feita no chamado “catálogo dicionário” organizado em fichas e acondicionado em um arquivo de madeira. Esse “catálogo dicionário” possibilitava a busca do livro pelo nome do autor, pelo assunto ou pelo título. Por esse sistema de busca era possível levantar quais obras de determinado autor havia na biblioteca, pesquisar determinado assunto, conteúdo e assim por diante. As fichas eram organizadas em ordem alfabética como um dicionário, o que explica o nome “catálogo dicionário”. Esse sistema possibilitava três formas de busca: pelo sobrenome do autor da obra, pelo título do livro e ainda pelo assunto. Ao encontrar a referência do livro de interesse, era preciso anotar seu número de chamada, que ficava no canto esquerdo da ficha, e procurá-lo na estante, pelo mesmo número que ficava registrado na lombada do livro. Após encontrar o livro o aluno devia se dirigir até a mesa da bibliotecária para o registro do empréstimo.</p>
                <p>Algumas estantes não tinham acesso livre e em outras o livro só poderia ser retirado com o auxílio da bibliotecária ou de um de seus auxiliares. Mas, livros como os da Coleção Biblioteca das Moças eram facilmente emprestados. A censura de determinados livros não estava posta. No entanto, passar pelo momento de registro no livro de empréstimos da bibliotecária era, por si só, um ritual de censura. As ex-alunas relatam a preocupação de ouvir nesse momento que o livro não seria adequado para a sua idade ou impróprio para leitura de meninas. Mesmo os livros que não podiam ser retirados da biblioteca e eram usados apenas na sala de leitura passavam por esse registro.</p>
                <p>Dentro desse trabalho de memória buscou-se decifrar os indícios deixados pelas “possíveis leitoras” com o auxílio dos relatos das ex-alunas. Aos poucos a “leitora pretendida” dentro da estratégia editorial da Companhia Editora Nacional cede espaço para essa “leitora rastreada”, que realmente leu os romances da Coleção Biblioteca das Moças como aluna do Instituto de Educação “Carlos Gomes”.</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>Os deslocamentos entre a “leitora pretendida” e a “leitora rastreada”</title>
                <p>Se, por um lado, as “possíveis leitoras” mostravam-se fugidias, por outro, à medida que a pesquisa avançava, outras possibilidades de como rastreá-las eram encontradas. A primeira possibilidade foi pesquisar as estratégias editoriais e intencionalidades de atração e fidelização desse público a partir da representação (<xref ref-type="bibr" rid="B09">Chartier, 1990</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B10">1991</xref>) de mulher presente no período em que foi idealizada ou a partir de “um ponto de vista insólito” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Ginzburg, 2004</xref>, p. 41), suspeitar dos modos como essa leitora foi atraída pela estratégia editorial ou atraída por motivos diferentes das intenções ali veiculadas.</p>
                <p>A segunda está relacionada ao fato de a Coleção pertencer a uma instituição escolar, o que deu ancoragem aos períodos, perfis de leitor, condições de composição do acervo da biblioteca e movimento de leitura nesse lugar. Assim, pesquisar uma Coleção de romances que permanece na mesma instituição em que possivelmente seus leitores tiveram acesso agrega significados ancorados à história da instituição. Como já mencionado, com o propósito de compreender como ocorria o acesso dos leitores aos livros e formas de empréstimo foram realizadas entrevistas com quatro ex-alunas. Além de explicar as relações estabelecidas com a instituição e a biblioteca, as entrevistas agregaram considerações importantes sobre os modos de ler, a leitura feita em diferentes suportes, e sobre a leitura realizada dentro e fora da instituição.</p>
                <p>O levantamento e tratamento dos dados coletados levaram à terceira possibilidade. Após o levantamento e tabulação foi gerado um grande volume de dados, que, a princípio, apontavam apenas para uma coleção homogênea organizada a partir de uma estratégia. Entretanto, ao contemplar essa aparente homogeneidade com algum distanciamento, foram identificados os pontos de desvio (<xref ref-type="bibr" rid="B02">Certeau, 1982</xref>) que apontavam outra perspectiva de análise. O ponto de desvio surgiu ao identificar a recorrência de empréstimos de doze romances entre os setenta e nove disponíveis. A partir de então, esses doze romances passaram a ser tratados como os “romances preferidos” e os motivos que levaram a serem preferidos tornou-se uma possibilidade de análise.</p>
                <p>Após a análise do conteúdo dos “romances preferidos” verificou-se que as autoras tinham estilos distintos e bem definidos demonstrando o potencial em investigar não apenas a produção do livro enquanto suporte, mas também a produção de seu texto. Assim, as duas pontas do processo – a autora e a “possível leitora” – ganharam evidência sem perder de vista o entremeio da produção editorial. Esse aspecto adensou a discussão sobre os posicionamentos presentes na educação das mulheres e implícitos nos romances. As descobertas feitas a partir dos “romances preferidos” apresentaram autoras que rompiam com o modelo esperado para a mulher naquele período. Entre as autoras encontra-se Elinor Glyn<bold><xref ref-type="fn" rid="fn06">6</xref></bold> considerada a precursora do romance erótico e Concórdia Merrel<bold><xref ref-type="fn" rid="fn07">7</xref></bold>, modelo fotográfico que foi a Garota Kodak<bold><xref ref-type="fn" rid="fn08">8</xref></bold> por muitos anos. Ambas criavam condições em seus romances para suas protagonistas escaparem ao padrão esperado sem, contudo, subverter a ordem vigente.</p>
                <p>Ao tratar a história do impresso como uma história das práticas culturais a ele associadas, <xref ref-type="bibr" rid="B08">Chartier (2004)</xref> considera que o texto traz um conjunto de dispositivos resultantes de sua escrita e intencionados pelo seu autor, estabelecendo protocolos de leitura. Entretanto, esses dispositivos cruzam com outros relacionados às questões tipográficas e provenientes do trabalho editorial, que deixam implícitos para qual leitor o impresso se destina. Essa interferência do editor tem tanta importância quanto a do autor, por dar suporte e atualização aos textos para que possam ser comercializados e atendam às expectativas do público. Para o tratamento desse conjunto de técnicas editoriais, seus modos de usos e apropriações realizadas por seus consumidores, os conceitos de estratégia e tática tratados por Michel de <xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau (1996)</xref> são relevantes.</p>
                <p>A tática é apresentada por Certeau como uma ação calculada determinada pela ausência de um próprio, pela ausência de poder. Se, por um lado, a estratégia é organizada pelo postulado de um poder, a tática é originada nas diferentes artes de fazer, e deriva das astúcias dos consumidores e de suas capacidades inventivas para escapar ao controle do outro e ter alguma possibilidade de ação (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>). É no cotidiano da cultura ordinária, onde ocorrem as práticas e as apropriações culturais daqueles que são tidos como não produtores que o produto ganha sentido. Ou seja, é fazer diário, reinventando seus modos, manejando e alterando os procedimentos estabelecidos que a tática é inventada.</p>
                <p>Essas práticas inventivas de usos ou de representações não são redutíveis às vontades de seus produtores e suas estratégias de produção. O ato de leitura não poderia ser, portanto, encerrado no próprio texto; passa pela aceitação dos modelos propostos e ocorre por meio de arranjos, desvios e resistências que manifestam a singularidade de cada apropriação (<xref ref-type="bibr" rid="B08">Chartier, 2004</xref>). A “leitora rastreada” indica que a “possível leitora” utilizava meios que subvertiam a ordem estabelecida pela cultura de consumo. E por essa ótica adquire poder sobre o texto lido, negociando habilmente com seus produtores a partir de táticas específicas de apropriação.</p>
                <p>Apesar de divulgados pela Companhia Editora Nacional como apropriados para a formação da mulher, considerados uma literatura didático-moral que difundiria valores socialmente manifestos, a análise dos “romances preferidos” indicou que as autoras da Coleção criavam personagens que possibilitavam a liberdade de escolha de suas “possíveis leitoras” oferecendo enredos com personagens com posturas divergentes. Assim, nutriam tanto um imaginário voltado para comportamentos idealizados socialmente quanto para comportamentos avessos às normas, possibilitando que suas leitoras experimentassem o que estava além das normas estabelecidas.</p>
                <p>Ao analisarem as narrativas dos romances ficcionais, Marisa Lajolo e Regina Zilberman seguem a pista indicada por <xref ref-type="bibr" rid="B12">Darnton (1992)</xref> de que uma das possíveis maneiras de fazer história da leitura é ir além do leitor esperado pelo autor ao criar seu texto. Para isso, o historiador deve buscar os “leitores de carne e osso” (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Zilberman, 1993</xref>). Esses leitores poderiam ser localizados, por exemplo, nos censos e dados sobre o negócio dos livros, passíveis, portanto, de serem historicizados e estudados estatisticamente (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Lajolo; Zilberman, 2009</xref>). Nesse trabalho as “leitoras de carne e osso” foram rastreadas através do número de usuário nos cartões de empréstimos dos romances e relatos de memórias de leitura das quatro irmãs ex-alunas do Instituto pesquisado.</p>
                <p>O trabalho de investigação indicou que a “leitora pretendida” idealizada pelos editores da Companhia Editora Nacional como um público para o consumo da Coleção Biblioteca das Moças seriam mulheres e moças que constituíam a comunidade emergente no consumo de livros, um novo público leitor com características e gostos diferentes daqueles apresentados pelos homens que identificavam e pretendiam guiar suas escolhas.</p>
                <p>Entre as décadas de 1920 e 1930, período em que a Coleção começou a ser publicada, a trajetória escolar da maioria das mulheres era diferente da trajetória escolar percorrida pelos homens. No Brasil, sobretudo fora dos grandes centros, muitas mulheres eram alfabetizadas no meio doméstico, com pouca vivência fora do ambiente familiar. Essas mulheres descendiam das leitoras de bíblias, vidas dos santos e manuais de boa conduta feminina (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Lajolo; Zilberman, 2009</xref>). Ao perceberem a possibilidade de apresentar seus gostos pessoais de leitura, essas novas leitoras das primeiras décadas do século XX no Brasil demonstraram um gosto mais mundano para leitura, próximo aos gostos mencionados por Lyons (1999, p. 166), ao abordar conquistas da leitora no século XIX.</p>
                <p>Para Lyons, apesar das mulheres não serem as únicas leitoras de romances, tornaram-se o público privilegiado para o consumo de publicações românticas tidas como populares, essa “feminização do público leitor de romances reforçava preconceitos dominantes sobre o papel da mulher e sua inteligência” (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Lyons, 1999</xref>, p. 171), alimentando a crença de que as mulheres tinham muita imaginação, capacidade intelectual limitada e muito tempo disponível para leitura, além de seus interesses serem voltados para a vida privada.</p>
                <p>Como já mencionado, se este trabalho considerasse apenas as estratégias editoriais, bastaria seguir essa constatação e permanecer investindo na compreensão das práticas de leitura a partir da representação trazida pela “leitora pretendida”. Porém, desde o princípio o objeto da pesquisa indicou que seria preciso “caçar” (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>) essa leitora, fugidia e furtiva e prestar atenção às possibilidades e deslocamentos para o seu rastreamento.</p>
                <p>No inquérito “O que se lê em São Paulo”, realizado pelo jornal O Estado de São Paulo, em 1920, foi demonstrado o quanto o gosto feminino já determinava a produção literária, as autoras apresentavam, inclusive, certa resistência à literatura nacional e indicavam como preferidas a chamada “literatura de água doce”. Essa adequação ao público pôde ser observada na apresentação do suporte dos romances da Coleção.</p>
                <p>As primeiras publicações no período de 1926 a 1933, considerado por <xref ref-type="bibr" rid="B20">Lang (2008, p. 16)</xref> como primeira fase receberam encadernação em capa dura e a divulgação era dirigida aos responsáveis pela educação das moças, não às leitoras. Esses indícios apontam para um investimento em convencer que o produto era de qualidade e seu conteúdo adequado para a leitura das moças. Havia, portanto, a compreensão de que a leitura a ser feita estava sob a tutela de seus responsáveis.</p>
                <p>Na segunda fase de 1933 a 1951 o suporte foi simplificado e passou a ser produzido apenas no formato brochura. O custo do livro foi diminuído e a divulgação já era dirigida para a leitora, essa mudança já demonstra autonomia das mulheres para frequentar livrarias e escolher os livros que gostariam de ler. A autonomia conquistada pelas leitoras alterou a dinâmica da produção de livros destinados à leitura feminina. Tal observação indicou o primeiro deslocamento ocorrido nas práticas de leitura desenvolvidas por esse público. As leitoras sinalizaram, para autores e editores, um perfil de leitora que indicava as adequações a serem feitas nas estratégias para manutenção desse público.</p>
                <p>O alerta feito por Lourenço Filho, ao verificar que o mercado editorial estava mais atento aos aspectos econômicos do que à qualidade do produto que era oferecido reforça essa constatação. Para garantir a venda e sucesso de determinado autor ou coleção, as editoras produzem “horríveis edições mutiladas” conseguindo que os exemplares “custem dez tostões” (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Lourenço Filho, 1927</xref>, p. 36). Desse modo, a divulgação no Jornal das Moças<bold><xref ref-type="fn" rid="fn09">9</xref></bold> em 1935 pretendia demonstrar que a Coleção estava em nova fase para atender ao que as moças desejavam ler. “Senhora! Quando escolher um livro, considere sempre o nome do editor! Só publicam bons livros os editores que têm um nome a zelar. Assim, a Companhia Editora Nacional, só manda traduzir pelos maiores escritores brasileiros os bons livros que edita”.</p>
                <p>O segundo deslocamento foi verificado à medida que a “leitora rastreada” não se mostrou estática em suas preferências. Mediante a análise dos romances com maior número de empréstimos, as leitoras demonstraram interesse por romances com características distintas. Mesmo com a procura pela “literatura de água doce”, demonstram apreciar a variação de seus enredos. Os editores precisavam investir em romances com protagonistas que atendessem à versão da mocinha ingênua e casta, mas também em protagonistas que fossem mulheres consideradas modernas e com posturas pouco convencionais. Ao diversificar o estilo dos romances, os editores atendiam à variação presente dentro deste público anteriormente circunscrito a uma estratégia editorial preocupada em agradar as famílias e não propriamente a leitora.</p>
                <p>Seguindo o interesse dessa possível leitora, a divulgação da nova fase da Coleção Biblioteca das Moças traz dois livros da autora Elinor Glyn, considerada uma autora polêmica e controversa, precursora do erotismo nos romances sentimentais. O termo “It” foi criado pela escritora como um eufemismo para atração sexual, tendo sido muito utilizado no início do século XX. No ano de 1923, Elinor publicou na revista Cosmopolitan o romance It falando sobre o estranho magnetismo entre duas pessoas, uma atração que não precisa de beleza necessariamente, mas de atração física, denominada por ela como <italic>It</italic>.</p>
                <p>As mudanças e adaptações dentro da Coleção não ocorriam apenas na escolha dos autores. Entre 1954 e 1960, por exemplo, a Companhia Editora Nacional modifica todas as capas dos romances e investe em imagens relacionadas à indústria cultural cinematográfica hollywoodiana. Dentro dessa perspectiva, a estratégia utilizada aproxima-se de fórmulas editoriais utilizadas na produção da <italic>Bibliothèque Bleue</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B06">Chartier, 1999</xref>), por ater-se às expectativas do público que se pretende atingir. “Assim, as próprias estruturas do livro são dirigidas pelo modo de leitura que os editores pensam ser o da clientela almejada” (<xref ref-type="bibr" rid="B06">Chartier, 1999</xref>, p. 19).</p>
                <p>À medida que os relatos avançaram para a idade adulta, passou a ser recorrente a afirmação entre as irmãs da falta de tempo para a leitura. O trabalho, a família, a chegada dos filhos são citadas como motivos para o distanciamento da leitura, não só de romances, mas de toda a leitura que não apresentasse o propósito de estudo para a formação profissional. Esse passou a ser considerando o terceiro <italic>deslocamento</italic>, no qual a leitora apresenta uma movimentação para fora da Coleção, para fora do gênero literário, e suspende a leitura por ela tratada como uma leitura por prazer para dedicar-se a uma leitura que atenda às demandas da vida adulta, por conseguinte, da vida profissional. E assim, mesmo para a leitura “toda vontade construtiva são necessários sinais de reconhecimento e acordos feitos acerca das condições de possibilidade, para que seja aberto um espaço onde se desenvolva” (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>, p. 34).</p>
                <p>O trabalho de memória realizado pelas irmãs sobre suas práticas de leitura contribuiu para a compreensão desses deslocamentos e diferenças propostas por <xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau (1996)</xref> sobre o consumo de massa de determinado produto por aqueles que não o produzem, mas que mesmo consumindo, não reproduzem a cultura tal qual o esperado para o produto consumido. Ou seja, ao consumirem o que era oferecido estrategicamente pelas editoras, as “leitoras rastreadas” operam silenciosamente em suas táticas e reinvenções.</p>
                <p>Encontrar sentido nos deslocamentos presentes nas práticas de leitura identificadas e compreendê-las como “artes de fazer”, a partir das regras próprias daqueles que as praticaram, passa por dar legitimidade aos saberes e valores que permeiam essas práticas do cotidiano de acordo com interesses e regras próprias (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>). Para pesquisar o cotidiano, <xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau (1996)</xref> afirma ser preciso ocupar o espaço de movimentação onde possa surgir uma liberdade. Assim, é preciso pensar as invenções e reinvenções cotidianas que rompem com a aparente uniformização existente.</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>A “possível leitora” e as invenções do ato de ler no cotidiano</title>
                <p>Ao tratar dos movimentos astuciosos presentes nas práticas e nas maneiras de utilização de produtos impostos por um lugar de poder, <xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau (1996)</xref> propõe que é preciso interessar-se não pelos produtos culturais oferecidos no mercado dos bens, mas pelas operações de seus usuários. Ou seja, ocupar-se com as “maneiras diferentes de marcar socialmente o desvio operado num dado por uma prática” (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>, p. 13).</p>
                <p>Os pressupostos presentes nos trabalhos de <xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau (1996)</xref> demonstraram o quanto os sistemas de produção, mesmo racionalizados e com investimentos estratégicos de divulgação, convivem com os modos que o consumidor desenvolve na utilização e ressignificação de tais produtos. Essa lógica que combina modos de pensar e agir é tratada por <xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau (1996)</xref> como formalidade das práticas e pôde ser verificada pelo aumento da procura de determinados títulos da Coleção enquanto os romances eram divulgados entre estudantes.</p>
                <p>A publicação de exemplares dos romances da Coleção percorreu um período que iniciou com a intenção da Companhia Editora Nacional oferecer uma leitura considerada sã para as moças de boa família e com o sucesso da Coleção foi alcançado um período que era preciso atender o gosto de um público em transformação para mantê-lo. As leitoras do final da década de 1950 já viviam um dilema entre ser uma mulher moderna e manter-se adequada para o casamento. Ter uma profissão sem parecer masculina e perder as habilidades de uma boa dona de casa. Ser uma mulher independente sem desistir de viver uma história de amor.</p>
                <p>A análise tanto das marcas de leitura e registros de empréstimos quanto dos relatos das ex-alunas indicou diferentes apropriações e usos na leitura desses romances. Em seus relatos, cada uma das irmãs atribuiu significados diversos às suas leituras, demonstrando que o consumo, em si, difere da produção, conferindo espontaneidade e reinvenção às práticas das “leitoras rastreadas”. Portanto, produção e consumo estariam diretamente ligados, coexistindo e passando por reinvenções.</p>
                <p>À medida que a “possível leitora” deixou a posição de mera consumidora e demonstrou suas preferências mediante o movimento de empréstimos possibilitando identificar os “romances preferidos”, considera-se que foi rompido dentro desse grupo o padrão de homogeneidade e repetição que configura a atitude passiva do consumo. Acompanhar o movimento dessa “possível leitora” permitiu a identificação de subterfúgios dos quais as autoras lançavam mão para driblar o controle exercido pelos editores e demais agentes sobre seu processo de criação.</p>
                <p>Com as devidas ressalvas aos trabalhos da memória e considerando os modos de proceder da atividade cotidiana, à medida que os relatos avançam, as práticas de leitura deixam de ser lineares e homogêneas (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>). As táticas que foram desenvolvidas pelas ex-alunas enquanto consumidoras voltam à memória quando o relato se desprende do suporte físico do romance e transitam pelas relações estabelecidas com outros leitores que apresentam gostos semelhantes. Assim, passam a citar os empréstimos dos livros entre estudantes, lembram da postura relacionada à leitura deste ou daquele professor, citam as leituras feitas na praça e demonstram o quanto as práticas de leitura fizeram parte das invenções do cotidiano.</p>
                <p>Os romances da Coleção Biblioteca das Moças surgem nas memórias não como enredos que apresentavam padrões de comportamento de outra época ou valores que caíram em desuso, mas como histórias de outrora. Não há uma identificação com as mocinhas românticas do início do século ou as mulheres modernas de Londres em plena urbanização; entretanto, essa falta de identificação não invalida o prazer da leitura desses romances.</p>
                <p>Uma prática rememorada foi a leitura de romances publicados como capítulos em periódicos como o Jornal das Moças<bold><xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref></bold>. Após a leitura do periódico, os capítulos eram recortados e organizados na sequência em que eram publicados com a intenção de manter o romance completo. As demais sessões eram organizadas conforme a utilidade de cada texto. As receitas iam para o livro de receitas, curiosidades eram distribuídas de acordo com o interesse das irmãs e o restante era descartado. Uma prática que remonta ao mencionado por <xref ref-type="bibr" rid="B22">Lyons (1999, p. 173)</xref> a partir da obra de Anne Marie Thiesse, intitulada <italic>Le Roman du quotidien</italic>: <italic>lecteurs et lectures populaires à la Belle Époque</italic>, publicada em 1984: “Eu recortava e encadernava os fascículos do jornal. Passávamos esses fascículos de uma mulher para outra. Na noite de sábado, os homens iam ao café e as mulheres vinham a nossa casa para jogar cartas. Sobretudo, trocávamos então nossos fascículos, textos como Rocambole ou La porteuse de pain” (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Lyons, 1999</xref>, p. 173).</p>
                <p>A prática acima foi descrita por uma filha de sapateiro nascida em 1900, relato muito próximo ao feito pelas irmãs ao buscarem na memória os modos de acesso aos romances. Um dos títulos recordados por elas foi <italic>Pollyana</italic>. As irmãs mais velhas fizeram a leitura do romance publicado no formato folhetim, já as irmãs mais novas lembram do romance publicado na Coleção Biblioteca das Moças. Comentam que, apesar da mudança do suporte, o enredo do romance aparentemente não foi alterado.</p>
                <p>Investigar os motivos que levaram leitoras rastreadas na década de 1970 a lerem romances considerados “literatura de água doce” produzidos nas décadas anteriores, indicam as “astúcias do prazer” e da “re-apropriação do texto do outro”, atribuindo novo estatuto tanto à autora quanto à leitora. E, se ao ler, o “leitor se introduz no lugar do autor” [...] e “torna o texto habitável, à maneira de um apartamento alugado. Ela transforma a propriedade do outro em lugar tomado de empréstimo” (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>, p. 49). Desse modo, buscar o que as “possíveis leitoras” tomavam de empréstimo nesses romances trouxe contribuições importantes para o rastreamento de suas práticas de leitura.</p>
                <p>Certamente, as “leitoras rastreadas” só habitaram o texto “à maneira de um apartamento alugado” (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>, p. 49), ao desenvolverem sua leitura. A interferência na atribuição de sentido para os próximos leitores ao habitarem o texto interfere e deixa pistas para seu próximo inquilino, desapropriando o autor da função de único produtor de sentidos, tanto ao decifrar e atribuir sentido próprio ao escrito quanto ao atribuir qualidade através das inscrições deixadas nas páginas dos romances.</p>
                <p>Compreender o ato do consumo a partir desse ponto de vista demonstrou que, apesar da Coleção Biblioteca das Moças resultar de “uma produção racionalizada, expansionista, além de centralizada” (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>, p. 39), as “leitoras rastreadas” demonstraram uma ação astuciosa, silenciosa e quase invisível que ocorria através dos modos de uso desses produtos impostos por uma ordem [...] dominante (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>, p. 39).</p>
                <p>Os modos de ler e o interesse pelo que seria lido em seu cotidiano fez com que as leitoras usufruíssem da atenção de romancistas e editores que adequaram as estratégias editoriais ao longo das décadas. E, possivelmente, também obtiveram atenção, direta ou indireta, dos responsáveis pela composição do acervo da biblioteca do Instituto de Educação “Carlos Gomes” ao adquirirem as Coleções de romances voltadas para o público feminino.</p>
                <p>Mesmo dentro da descrição aparentemente metódica, carregada de regras, ao ser relatado o uso da biblioteca sob a vigilância da bibliotecária, foi possível identificar a subversão dessas normas mediante manifestações que apresentavam características próprias, como numa “bricolagem poética e um reemprego das estruturas” (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>, p. 41). Apesar das estratégias editoriais, dos protocolos de leitura implícitos, do controle daquilo que era permitido ler no ambiente escolar, as “possíveis leitoras” inventaram seus modos de consumo. E, apesar do aumento e variedade na oferta de outros bens de consumo cultural, o romance continuou entre as opções de lazer das moças, permanecendo como uma leitura para horas livres, desenvolvida com maior recorrência, conforme a memória relatada, no ambiente doméstico e trajeto feito no transporte público da escola para casa.</p>
                <p>Em busca da “própria operação do ler, suas modalidades e sua tipologia” para captar de que modo as “possíveis leitoras” lidavam com os romances e identificar as modalidades originais dessas práticas foi considerado que, apesar da liberdade que possuíam e das astúcias praticadas, toda apropriação passa por possibilidades historicamente variáveis e socialmente desiguais. As quatro irmãs relatam de modos diferentes como vivenciaram o espaço do Instituto de Educação “Carlos Gomes”, as salas de aula, seus corredores, a sala de leitura, o pátio. Do mesmo modo, a memória traz os mesmos professores em versões diferentes. Para uma, parecia mais rígido, para outra, mais complacente. O mesmo professor ganha os tons e coloridos da memória. A figura do diretor relatada em tom solene na década de 1950 é dissolvida na memória da irmã mais jovem, que não consegue destacá-lo entre tantos outros funcionários que encontrava pelos corredores do Instituto na década de 1970.</p>
                <p>A referência ao livro didático<bold><xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref></bold> cabe neste trabalho por ser recorrente no relato da ex-aluna que frequentou o Instituto de Educação “Carlos Gomes” na década de 1970. Sua fala é marcada pelas referências ao uso do livro didático em sala de aula. Menciona que lhe chamava atenção a palavra “moderna” em grande parte dos livros e cita como exemplo a Matemática Moderna e a Moderna Gramática Brasileira. Outra diferença perceptível nos relatos é a relação estabelecida com o livro. Enquanto as irmãs mais velhas mantêm certa reverência aos suportes utilizados em sala de aula ou na biblioteca, a irmã mais nova já menciona o livro como um objeto de uso comum, naturalizado entre tantos outros objetos de uso.</p>
                <p>Compreender as práticas escolares instituídas a partir da transformação de materiais e objetos demonstra o quanto outras práticas são transformadas conjuntamente (<xref ref-type="bibr" rid="B06">Chartier, 1999</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B07">2011</xref>). Nesse caso o livro didático pode ser incorporado às práticas de leitura, pois muda a prática professor-lousa-conteúdo e aluno-caderno-cópia para professor-livro-leitura (explicação) e aluno-livro-leitura (assimilação). A prática do registro pelo estudante também foi alterada à medida que os livros didáticos começaram a disponibilizar espaços para resolução de exercícios e respostas, diminuindo o uso do caderno para registro dos alunos.</p>
                <p>Mais do que as mudanças trazidas pelas denominações ao longo dos anos, a instituição mudou principalmente pelas transformações ocorridas entre aqueles que nela atuavam. Em três décadas, alunos e professores precisaram se adequar às novas propostas de ensino. O que era considerado inovador quando da implantação do Instituto, na década de 1950, foi substituído pelas modernas propostas de ensino da década de 1970, período em que outra estratégia editorial adentra a instituição por meio das políticas do livro didático.</p>
            </sec>
        </sec>
        <sec sec-type="conclusions">
            <title>Considerações Finais</title>
            <p>A abordagem dada permitiu analisar práticas de uma determinada comunidade de leitores a partir do seu lugar de pertencimento e buscar a compreensão de como foram constituídas. As pistas para uma história das práticas de leitura, além de raras, geralmente estão implícitas em documentos diversos, exigindo do pesquisador uma postura detetivesca na busca de apreender seu objeto de investigação.</p>
            <p>Circunscritas em uma biblioteca extremamente organizada com normas e regras bem estabelecidas, onde havia um aparente silêncio e pouca liberdade para a invenção, as “possíveis leitoras” do Instituto de Educação Estadual “Carlos Gomes” buscaram outros espaços para a existência de um grupo ao redor de referências comuns. Nesse caso, o gosto por um hábito tão defendido pela escola, e por vezes igualmente restringido por ela, foi a referência para articular esse grupo de leitoras que foi renovado e reinventado num movimento dialético entre lugares e espaços, estratégias e táticas no cotidiano.</p>
            <p>A partir desse espaço controlado, no qual estudantes estavam inseridos, a “possíveis leitoras” atribuíram uma dimensão simbólica aos espaços físicos da biblioteca, dos corredores, salas e pátios, transformando-os em “lugar praticado” (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>). Os romances como um produto a ser consumido, compondo esse lugar, foram ressignificados por cada nova leitora, que mesmo buscando o romance a partir da indicação feita por outra leitora, lhe atribuía um outro sentido tornando-o próprio.</p>
            <p>Ao transformarem os tempos e espaços, estudantes que passaram pelo Instituto de Educação “Carlos Gomes” explicitaram <italic>táticas</italic> de apropriação e modos que operavam com suas leituras, práticas que permaneceram como vestígios nos romances do acervo. A partir deste “lugar de formação”, lugar como espaço próprio (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>), os movimentos “silenciosos, não articulados, transformam o lugar de maneira sub-reptícia” (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>, p. 173).</p>
            <p>As diferentes práticas de apropriação desses romances pressupõe uma relação entre táticas de apropriação e estratégias de imposição de modelos culturais. Ou seja, considera-se que o processo editorial acabou inventando uma “leitora pretendida” à qual o romance era destinado e, à medida que essa estratégia idealizou essa leitora, também determinou um tipo específico de leitura para atendê-la. Essa representação de leitora estabelece as mudanças e adaptações realizadas nos romances e de acordo com cada “leitora pretendida” que recompôs uma comunidade tratada neste trabalho como as “leitoras rastreadas”.</p>
            <p>Os indícios deixados pela “leitora rastreada” mostraram formas de circulação e apropriação dessa Coleção e a produção de sentidos singulares a partir das representações associadas ao consumo desse bem cultural. Dessa maneira, a produção da Coleção demonstrou ser, conforme aponta <xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau (1996)</xref>, uma “produção secundária”, que leva a invenção de novas maneiras de utilizar os produtos impostos mediante as astúcias anônimas das “artes de fazer” e viver.</p>
            <p>Desse modo, a leitura dos romances da Coleção Biblioteca das Moças, dentro da biblioteca do Instituto de Educação “Carlos Gomes”, pertenceu a uma leitura ordinária. Sua leitura não precisava ser legitimada, nem apresentar um sentido único a ser conferido por outro, fosse a bibliotecária ou os professores. Nesse aspecto, ler romances na escola possibilitou a reinvenção do próprio ato de ler, seja na biblioteca ou na sala de aula a leitura era objeto da prática de ensino, ao ler romances, estudantes podiam atribuir sentido outros a sua leitura e não renunciar ao direito de habitar o texto que lê operando formas singulares de “habitar o escrito” (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Certeau, 1996</xref>).</p>
            <p>A aproximação dos sentidos dessas artes do fazer aqui entendidas como práticas de leitura possibilitou identificar, através das marcas deixadas por essas “possíveis leitoras”, a leitura como lugar de liberdade e criatividade, indicando que a leitura produz outros efeitos além dos de inculcar normas e condutas.</p>
        </sec>
    </body>
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        <fn-group>
            <fn fn-type="other" id="fn02">
                <label>2</label>
                <p>A Escola Complementar de Campinas foi criada pela Lei nº 861, de 13/12/1902. Foi instalada em 31 de janeiro de 1903, iniciando as aulas em 24 de abril do mesmo ano. O decreto nº 2.025, de 29/03/ 1911 estabeleceu que as Escolas Complementares fossem alteradas para Escolas Normais Primárias. Com a Reforma Sampaio Dória em 1920, Lei nº 1.750/20 alterou sua denominação para Escola Normal de Campinas, uma vez que unificou a estrutura de formação das Escolas Normais Primárias e Secundárias. Esse período foi encerrado em 19 de maio de 1936 através do decreto do governador do Estado de São Paulo, Armando Salles de Oliveira que alterou a denominação para Escola Normal “Carlos Gomes”. Após esse período, a instituição passou ainda por outras quatro mudanças. Em 1942 para Escola Normal e Ginásio Estadual “Carlos Gomes”. Em 1951 para Instituto de Educação Estadual “Carlos Gomes”. Em 1976 para Escola Estadual de Primeiro e Segundo Graus “Carlos Gomes” e por último em 2000 passa a ser denominada Escola Estadual “Carlos Gomes” permanecendo até o momento. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.crmariocovas.sp.gov.br/pdf/neh/1897-1903/1903-Escola_Complementar_de_Campinas.pdf.">http://www.crmariocovas.sp.gov.br/pdf/neh/1897-1903/1903-Escola_Complementar_de_Campinas.pdf.</ext-link> Acesso em: 31 maio 2024.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn03">
                <label>3</label>
                <p>Monteiro iniciou seus trabalhos em 1917 com Edições da Revista do Brasil. Em 1919 foi fundada a Lobato e Cia. transformada em Monteiro Lobato e Cia., com a entrada de Octalles Marcondes Ferreira como sócio de Lobato, em 1920. A Monteiro Lobato e Cia. vai à falência em 1925, por não conseguir pagar as máquinas da gráfica recém-adquiridas, levando à falta de capital para o pagamento das dívidas e a falência da empresa. A partir da falida Monteiro Lobato e Cia a Companhia Editora Nacional é montada por Monteiro Lobato, Octalles Marcondes Ferreira e seus irmãos, em 1925. Retorna ao mercado editorial e figura entre as maiores editoras do país. Lobato permanece até 1929, momento em que vende suas ações, mas continua com poder de decisão dentro da Editora (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Toledo, 2001</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn04">
                <label>4</label>
                <p>Ao citarem o Clube de leitura que frequentavam é feita a menção ao Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA) fundado em 31 de outubro de 1901, na cidade de Campinas, por um grupo de cientistas, artistas e intelectuais que decidiram criar uma instituição em que pudessem fazer reuniões para o estudo, produção de atividades científicas e artísticas. Durante as primeiras décadas do século XX, pela própria ausência de um espaço público dedicado exclusivamente à cultura, o CCLA reuniu e promoveu grande parte das produções culturais da cidade. Disponível: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://ccla.org.br/sobre-o-ccla/.">http://ccla.org.br/sobre-o-ccla/.</ext-link> Acesso em: 31 maio 2024.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn05">
                <label>5</label>
                <p>Em 15 de setembro de 1946, na gestão do Prefeito Municipal Joaquim de Castro Tibiriçá, o Grêmio da Escola de Biblioteconomia da Universidade Católica, hoje PUC-Campinas, tendo à frente a Sra. Laura Bierrenbach de Castro Vasconcelos, o professor Ernesto Manoel Zink e diferentes setores da Sociedade, inaugurou a Biblioteca Municipal de Campinas. Somente em 15 de setembro de 1971, pelo Decreto nº 3911, do prefeito Orestes Quércia a biblioteca recebe o nome de Biblioteca Pública Municipal “Professor Ernesto Manoel Zink”. Em 9 de janeiro de 1975, por meio do Decreto Municipal 4.460, do prefeito Lauro Péricles Gonçalves, o terreno onde hoje está situada a biblioteca e o Museu de Arte Contemporânea de Campinas é doado ao Município por Roque Melillo. Disponível: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.campinas.sp.gov.br/governo/cultura/bibliotecas/ernesto-zink.php.">http://www.campinas.sp.gov.br/governo/cultura/bibliotecas/ernesto-zink.php.</ext-link> Acesso em: 31 maio 2024.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn06">
                <label>6</label>
                <p>Elinor Glyn recebeu o título de precursora do erotismo nos romances sentimentais. A autora inglesa conta com dois romances entre os mais procurados na biblioteca do Instituto de Educação “Carlos Gomes”. Em uma época de mães amorosas e esposas dedicadas, as protagonistas dos romances de Elinor Glyn encontram “rotas de fuga” para escapar das prerrogativas consideradas inerentes à mulher. Elinor Glyn constrói personagens que lidam com o amor romântico sem anular o desejo latente entre o homem e a mulher. As relações estabelecidas partem do desejo por suas qualidades ou atributos físicos, conduzindo-os a um jogo de sedução, etapa que, em outros romances, é descrita como um momento de aproximação do casal com o namoro ou noivado que são vivenciados no meio familiar e social, em Glyn esta etapa é circunscrita ao homem e à mulher, conduzida pelo desejo presente entre os dois. A romancista não apresenta a preocupação que esta etapa ocorra dentro de convenções sociais (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Kirchner, 2016</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn07">
                <label>7</label>
                <p>Concórdia Merrel, pseudônimo usado por Mary Phyllis Joan Morton, em seus romances a autora apresenta papéis sociais são bem definidos, percebendo a ênfase no modelo de mulher voltada para a casa e a família. Contudo, aparecem mulheres independentes financeira e profissionalmente, sejam herdeiras de fortunas ou pelo trabalho. Esse modelo não fica circunscrito às protagonistas, foram localizadas personagens secundárias com personalidade forte, decididas, que assumiam posicionamentos diversos ao esperado socialmente (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Kirchner, 2016</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn08">
                <label>8</label>
                <p>A fábrica Kodak foi pioneira ao produzir câmeras fotográficas mais leves, fáceis de manusear e mais baratas possibilitando o registro do cotidiano das pessoas. “[...] em 1888 saiu a primeira câmera Kodak 100 vistas com rolo de papel. A máquina vendia-se carregada e, uma vez impressionadas as cem vistas, o fotógrafo mandava a câmara para a fábrica, onde se processava o rolo e se devolvia ao cliente a câmera novamente carregada, acompanhada do negativo revelado e das cópias positivas” (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Sougez, 2001</xref>, p. 147).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn09">
                <label>9</label>
                <p>O anúncio foi veiculado na revista O Jornal das Moças em 3 de outubro de 1935. Esse periódico abordava assuntos de interesse feminino e foi publicado no Rio de Janeiro entre as décadas de 1910 e 1960. Tinha distribuição nas capitais de todo o país e algumas cidades do interior. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=111031_03&amp;pasta=ano%20193&amp;pesq=&amp;pagfis=0.">https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=111031_03&amp;pasta=ano%20193&amp;pesq=&amp;pagfis=0.</ext-link> Acesso em: 24 maio 2024.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn10">
                <label>10</label>
                <p>Conferir nota de rodapé número 9.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn11">
                <label>11</label>
                <p>Podem ser encontradas, nos estudos da história da educação do Brasil, referências ao livro didático, em suas diferentes compreensões – manual, compêndio etc. – desde final do XVIII e início do XX. O livro didático aqui mencionado refere-se ao período em que foi extinto o acordo entre o Ministério da Educação (MEC) e a Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que permitiu a criação da Comissão do Livro Técnico e Livro Didático (COLTED) com o objetivo de coordenar as ações referentes à produção, edição e distribuição do livro didático. O acordo foi alvo de muitas críticas por parte de educadores brasileiros. Em 1971, com a extinção da COLTED e o término do convênio MEC/USAID, o INL passou a desenvolver o Programa do Livro Didático para o Ensino Fundamental (PLIDEF), assumindo as atribuições administrativas e de gerenciamento dos recursos financeiros (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Gatti Júnior, 2004</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other">
                <p>Artigo elaborado a partir da tese doutorado de C. S. KIRCHNER intitulada Práticas de leitura: a Coleção Biblioteca das Moças no Instituto de Educação “Carlos Gomes” em Campinas (1951-1976). Unicamp, 2016.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other">
                <p><bold>Como citar este artigo</bold>: Kirchner, C. S. Os rastros das práticas de leitura de romances na biblioteca do Instituto de Educação “Carlos Gomes”. <italic>Revista de Educação PUC-Campinas</italic>, v. 30, e13160, 2025. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://doi.org/10.24220/2318-0870v30a2025e13160">https://doi.org/10.24220/2318-0870v30a2025e13160</ext-link></p>
            </fn>
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